Associação das Micro Cervejarias Artesanais de Santa Catarina

Artigo

​Incentivar as artesanais é ter benefícios além do copo

Carlo Lapolli
Presidente da Associação das Cervejarias Artesanais de Santa Catarina (Acasc)

Mais de um mês depois do Festival Brasileiro da Cerveja e com a expectativa de novos eventos regionais e internacionais do segmento no estado, ainda são recorrentes as dúvidas do consumidor sobre o que é e quais os impactos da cerveja artesanal na economia local. Antes de mais nada, é preciso esclarecer que as cervejarias artesanais são aquelas que funcionam com todos os registros nos órgãos oficiais, não utilizam cereais transgênicos nas suas receitas e focam na qualidade sensorial dos seus produtos.

Mas a distinção sobre esse setor vai além disso. Enquanto nas marcas comerciais o objetivo é exclusivamente o lucro, as artesanais, além de precisarem ser rentáveis como qualquer negócio, também se motivam pela apresentação de novos sabores para o consumidor.

A cerveja artesanal é uma representante do que Santa Catarina tem a oferecer para o mundo: uma experiência gastronômica e turística diferente, produtos de qualidade e valor agregado.

A cultura cervejeira vai além do copo e os reflexos desta atividade também. É por isso que estamos buscando junto ao Governo do Estado e os órgãos responsáveis alguns incentivos como a ampliação do crédito presumido da operação própria e da substituição tributária de 13% para 20%.

Outra solicitação da Acasc e das cervejarias integrantes do movimento catarinense é que parte do recurso arrecadado com as cervejarias seja destinado a entidades de fomento ao turismo. Foram elas, junto com organizações de classe e a iniciativa privada, que possibilitaram que o Vale da Cerveja e o Caminho Cervejeiro já estivessem em operação, trazendo turistas para o estado.

O que pleiteamos nada mais é do que uma condição igualitária para chegar ao mercado demonstrando a qualidade que Santa Catarina tem. Queremos que o turismo seja uma ferramenta de renda para toda a população. Trabalhamos para que a cerveja transborde os copos e possamos brindar desenvolvimento econômico, os produtos de qualidade na mesa dos catarinenses e os empregos que o turismo gera.​

Oficialmente Capital Brasileira da Cerveja

Carlo Lapolli
Presidente da Associação das Micro Cervejarias Artesanais de Santa Catarina (Acasc)

Há registros de que Dr. Blumenau, na carta que enviava aos interessados em viver no Vale Europeu, pedia que eles trouxessem malte. Mais de 165 anos depois, comemoramos hoje o que a nossa história já nos apontava há décadas: Blumenau é a Capital Brasileira da Cerveja.

O projeto de lei de autoria do deputado Décio Lima (PT-SC) recebeu parecer favorável do senador Dalírio Beber (PSDB-SC) e foi votado na última quinta-feira (16). Agora, aguarda apenas a sanção presidencial.

Santa Catarina produz mais de 1 milhão de litros ao mês de cerveja artesanal, através de cerca de 50 marcas. São 300 rótulos diferentes. Embora o estado seja referência quando o assunto é a bebida, não dá pra negar a influência que Blumenau exerce sobre essa trajetória. Alguns exemplos deixam isso ainda mais claro.

Um dos mais óbvios é a Oktoberfest. Além de ser uma tradicional festa de cerveja e cultura alemã, ela evidencia a valorização do catarinense pela cerveja artesanal: as marcas locais são cada vez mais representativas no volume da bebida consumido na festa.

Em março, os olhos do mercado cervejeiro mundial se voltam para Blumenau com o Festival Brasileiro da Cerveja, o Concurso Brasileiro da Cerveja e a Feira Brasileira da Cerveja. Os eventos, retomados em 2010, já são considerados os mais importantes do país no segmento.

Durante todo o ano, a Escola Superior de Cerveja e Malte recebe centenas de alunos de todo o mundo. Turistas movimentam o Museu da Cerveja em busca de conhecimento sobre a produção e a história da bebida no município. Mais recentemente, o organizado Vale da Cerveja reúne informações para o turista que deseja vivenciar a experiência cervejeira.

Além de tudo isso, ainda temos as cervejarias. Premiadas nacional e internacionalmente, elas disseminam a marca de qualidade que a cidade imprimiu em setores como têxtil, tecnologia e informática também no sabor das suas receitas.

O que Blumenau era por fato, agora também é por direito. Cabe aos blumenauenses, cervejeiros, órgãos públicos e privados extrair resultados deste título para toda a sociedade. E se depender do que estamos vendo acontecer, não vai demorar muito.​

[Artigo] 10 dicas para um cervejeiro cigano

Por Carlo Lapolli
Presidente da Acasc

 

Quando a paixão cresce e a vontade de transformar seu hobby em negócio inicia, o cervejeiro caseiro tem que buscar algumas informações. Afinal, entrar em um mercado competitivo como o da cerveja, demanda conhecer bem o seu consumidor e especialmente as regras de negócios aplicáveis. A tributação da cerveja, por exemplo, é das mais complexas do Brasil. Cada estado da federação tem uma tributação própria de ICMS. Isso demanda conhecimento e estudo.

Aqui vão algumas dicas para quem quer empreender nesta área.

1) Legalize-se. Fazer cerveja em casa não é ilegal. Porém, comercializar a sua cerveja não é permitido. Para vender sua produção, o cervejeiro deve estar registrado no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Além disso, você tem que ter uma empresa, um CNPJ, que segundo a atual legislação não pode ser uma empresa do regime “simples”.

2) Para ser cigano, você não precisa ter uma fábrica. Na verdade, você vai produzir em uma fábrica legalizada e “comprar” sua produção para revender. A fábrica cuidará dos trâmites burocráticos do registro de sua receita. Faça um contrato deixando claro as obrigações de cada parte.

3) Pense além da cerveja. A cerveja, o produto em si é importante, mas tão importante quanto o que vai dentro da garrafa, é todo o conceito de sua marca. Registre sua marca. Existem escritórios de marcas e patentes que vão lhe auxiliar para ter o registro e a proteção para que ninguém utilize indevidamente a sua

4) Pense em todos os atributos de sua cerveja. É importante na definição da receita e escolha de estilo de seu mix de produtos, que você enxergue além da própria cerveja. Pense na identidade visual, no seu rótulo, no tamanho do vasilhame, no preço que o produto vai chegar ao mercado, na comparação com a concorrência e na comunicação com o consumidor. Uma boa agência de marketing vai lhe ajudar muito.

5) Tenha souvenirs bacanas. Lembre-se que o faturamento de sua “Cervejaria Cigana” pode vir não só da cerveja em si, mas da exploração de outros itens e souvenirs de sua marca. Com pouco dinheiro, você consegue ampliar o seu faturamento e alavancar suas vendas. A percepção do consumidor também vai melhorar com um mix de souvenirs legais.

6) Tenha uma sede. Mesmo que você não tenha a cervejaria, você precisará de um espaço. Lógico que você poderia armazenar o seu estoque no quarto de costura de sua mãe. Mas isso não é profissional. Pense em ter uma sede, um local que você possa montar um showroom com toda sua linha de produtos, ter uma pequena câmara fria para barris, e eventualmente até um bar. Lógico que o bar exige um maior investimento, mas se não der, tenha pelo menos um local que você possa promover um dia de recarga de growler, por exemplo.

7) Coloque todas estas ideias no papel. Fazer um plano de negócios, planejando suas metas de vendas, preço de mercado e expectativas de aumento de produção são fundamentais. Se o hobby se tornará sua profissão, pense em quanto você precisará ganhar para trabalhar pela sua empresa. As vezes, uma boa ideia pode não ser viável financeiramente. Faça contas e discuta seu plano com alguém experiente em negócios.

8) Entenda muito bem dos tributos. Como falamos, a parte mais sensível da venda de cervejas é a tributação. Entenda quais os seus custos tributários, e quanto custará vender para outros estados. Quando você é cigano, a fábrica que produziu para você já terá recolhido os tributos e inclusive o ICMS ST. Ou seja, se você vender para dentro do estado, não haverá uma nova tributação de ICMS, mas se você vender para fora, deverá pagar uma diferença. Peça auxílio para o seu contador para montar uma tabela simulando as vendas para os estados que serão seu mercado alvo.

9) Aproxime-se das cervejarias e dos cervejeiros caseiros. As associações das cervejarias como a Acasc, de Santa Catarina, já permitem a participação das ciganas em seus quadros. Participar de uma associação reforçará sua marca e ajudará você com a troca de experiências. Da mesma forma, mantenha um laço estreito com os cervejeiros caseiros. Se você veio desse movimento, terá feito um bom número de amigos. Os caseiros são nosso mercado primário e além de consumirem boas cervejas artesanais, são multiplicadores e formadores de opinião.

10 ) Jamais venda sua produção caseira. Pode parecer tentador vender uma produção. Eventualmente, rachar a produção de uma leva é aceitável, faz parte para manter o hobby. Mas o que não pode acontecer é rotular sua cerveja e manter pontos de vendas fixos como se fosse uma cervejaria. Além de ser ilegal por não estar registrado no MAPA, você está praticando uma concorrência desleal. Pode ter os produtos apreendidos e gerar uma autuação para si e inclusive para o ponto de venda que comercializa este produto. Pense que muitas cervejarias estão surgindo fruto da dedicação de quem está fazendo a coisa de forma correta. Além do próprio registro do MAPA (que não é complicado) a venda de cerveja “pirata” é feita de maneira irregular, sem nota fiscal e com sonegação fiscal. Lógico que num mercado onde o produto sofre até 50% de tributação, vender sem nota um produto irregular é concorrência desleal. Existem nanocervejarias que produzem menos de 2 mil litros por mês e estão regularizadas. Pense como seria desleal você não ter nenhuma obrigação legal e nenhum imposto para pagar frente a este cervejeiro. Se você não concorda com a legislação atual, lute para mudá-la, e não para burlá-la.

[Artigo] Santa Catarina: um estado cervejeiro

Carlo Lapolli
Presidente da Associação das Micro Cervejarias Artesanais de Santa Catarina (Acasc)

 

Não dá pra negar que a tradição cervejeira em Santa Catarina começou com os imigrantes alemães que desembarcaram no Vale Europeu. Mas também é impossível não perceber que a cultura da cerveja artesanal, seus benefícios para a economia e o desenvolvimento de uma indústria de apoio a esse setor já tomou o estado de Norte a Sul.

Muito inspirados pela cultura cooperativista dos vitivinicultores que construíram uma história de reconhecimento para o estado no segmento, também estamos apostando no cooperativismo e na colaboração entre as empresas para aprender e despontar.

Mapeamos, através da Acasc, mais de 50 marcas de cerveja atuando ou em implantação em Santa Catarina. Algumas com fábricas próprias, outras com produção terceirizada. Elas estão localizadas em 32 cidades que vão desde os maiores do estado até municípios com menos de 20 mil habitantes. Isso significa que, em mais de 10% das cidades catarinenses estão sendo comercializadas cervejas com foco na qualidade.

Blumenau, como berço desta atividade, está buscando o reconhecimento como Capital Nacional da Cerveja. Falta apenas a aprovação no Senado. Doze cervejarias da Grande Florianópolis e região acabaram de criar o programa Eu Bebo Cerveja Local, que estimula o uso de growlers (garrafas retornáveis específicas para transporte de chope) para que o consumidor possa aderir à cultura cervejeira com descontos especiais e conheça as marcas produzidas perto da sua casa. Há ainda o Vale da Cerveja, projeto que estimula o turismo no Vale Europeu através de visitas e degustações nas cervejarias locais que também já está sendo replicado no “Caminho Cervejeiro” na região metropolitana da capital. Isso sem contar o esforço individual de cada marca.

Vale ressaltar que toda essa movimentação só acontece porque temos aqui dois grandes diferenciais. O primeiro é que a maioria dos nossos empreendedores reúne a preocupação com a gestão do seu negócio à paixão pela cerveja. O segundo é que graças a uma cultura já arraigada, temos aqui um consumidor que está acima da média nacional em conhecimento sobre a bebida e que estimula nossas cervejarias a irem cada vez mais longe. Um brinde!